Estava escrevendo, sentiu a orelha pesada. Pensou que fosse cansaço, eram 11 da noite, estava fazendo hora-extra. Escriturário de uma firma de tecidos, solteiro, 35 anos, ganhava pouco, reforçava com extras. Mas o peso foi aumentando e ele percebeu que as orelhas cresciam. Apavorado, passou a mão. Deviam ter uns dez centímetros. Eram moles, como de cachorro. Correu ao banheiro. As orelhas estavam na altura do ombro e continuavam crescendo. Ficou só olhando. Elas cresciam, chegavam a cintura. Finas, compridas, como fitas de carne, enrugadas. Procurou uma tesoura, ia cortar a orelha, não importava que doesse. Mas não encontrou, as gavetas das moças estavam fechadas. O armário de material também. O melhor era correr para a pensão, se fechar, antes que não pudesse mais andar na rua. Se tivesse um amigo, ou namorada, iria mostrar o que estava acontecendo. Mas o escriturário não conhecia ninguém a não ser os colegas de escritório. Colegas, não amigos. Ele abriu a camisa, enfiou as orelhas para dentro. Enrolou uma toalha na cabeça, como se estivesse machucado.
Trancado, solitário e esquecido nas trevas de sua casa, onde pensa no suicídio e clama a morte. Na cozinha, ele pega uma faca com a pretensão e amputar-se, chorando e gritando, clamando pelo seu fim mortal.
Os gritos de desespero foram ouvidos na casa vizinha, onde mora um doutor, que foi conferir a situação. Quando entrou, viu um homem dizendo:
- Matem-me, Matem-me.
- O que está acontecendo?
- Mate-me, Mate-me.
- Acalme-se rapaz.
Mas o triste pranto não principiava um término, e o deprimente clamor dá pena. Então o doutor perguntou:
-Qual o motivo de seu pranto?
-Não vês? Olhe minhas orelhas enormes.
As orelhas estavam normais. Então refletiu um pouco sobre qual seria o porquê de tal ilusão. Ele fez uma pergunta:
- Você fuma maconha?
- Sim
E quando percebeu a suspeita do doutor continuou:
- Mas não usei hoje
- Agora compreendi!
- Hã?
- Você estava vendo uma ilusão por causa de um dano neurológico causado pela erva.
- Meu Deus! Por favor, meu amigo, ajuda-me.
- Claro, vou ajuda-lo... Meu amigo
O pranto continua, mas agora não mais de desespero, mas de agradecimento, alegria e esperança. Ele chora e abraça seu novo amigo enquanto diz “obrigado”. Então ele dorme, e o doutor vai para sua casa, e o sono alivia a dor com lindos sonhos nas trevas da sua casa.
Autor: Rafael Queiroz Alves dos Santos. Introdução: Ignácio de Loyola Brandão (O homem cuja orelha cresceu)
Data: 03/04/2017 [esse ficou meio... digamos... depressivo (hehehe) ]
Contextualização 2024
Esse conto foi escrito quando eu tinha 16 anos, foi o primeiro conto que escrevi, antes já havia criado histórias e produzido bons textos de outras naturezas, mas nunca uma narrativa textual e estruturada de um conto, esse era um trabalho de redação na escola onde a professora pegou o início de um texto do Ignácio de Loyola Brandão e nos deu a tarefa de produzir um conto continuando esse texto, ao invés de fazer um texto normal que seguiria uma história maluca como era a original eu resolvi fazer algo sério e pesado, chega a ser engraçado como o tom emocional da narrativa muda subitamente de uma forma que torna muito mais triste e claramente escrita por um iniciante, é também engraçado comparando com a original, que é uma história cômica, mas que também é bizarra e com acontecimentos tragicômicos, claramente muito superior ao que fiz, mas obviamente chega a ser injusto comparar um escritor experiente com um adolescente que nunca tinha escrito um conto antes. É interessante ver o meu estilo de escrita nessa época que pode ser melhor visto em textos posteriores onde eu tive mais liberdade criativa.